Há exatos 39 anos, neste mesmo 28 de Setembro, Maria Gabriela saiu com um saco e um vasilhame metálico em busca de socorro. Depois de descer do ônibus, entregou o material a um atendente da Vigilância Sanitária, que o depositou em uma cadeira e por lá ele permaneceu por um tempo que pareceu infinito. A ação intitulada “áspera espera” traz à tona o gesto mais decisivo e crucial para a cidade de Goiânia de hoje e de todos os últimos 39 anos.

O artista Glauco Gonçalves tira a cadeira de dentro do ano de 1987 e a instala nos mesmos pontos pelos quais a cápsula deixou de ser uma prova da negligência criminosa permanente e passou a ser o mortífero pó azul. Glauco Gonçalves diz, para a surpresa de alguns, para a amnésia de todos, que a espera não cessou, que a cadeira mal suporta o peso acumulado de angústia e de silêncio. Foram quatro os lugares. O que os liga é uma sintaxe de violência e desdém.

Primeiro abandonada pelos donos do Instituto Goiano de Radioterapia, para em seguida circular por ruas
que hoje não querem dizer mais nada, até encontrar as mãos da mulher que a retirou dessa roda da desgraça e exigiu o que nunca foi concedido: responsabilidade. Com fotografias de Tarsilla Couto de Brito e coprodução de Henrique De La Fonte, a cadeira impõe-se como metonímia da memória que se multiplica pela cidade. Ela está ao mesmo tempo no portão do Centro de Convenções, onde recusa ser mais uma entre as muitas cadeiras que lá se encontram para acomodar uma imagem desinfectada de Goiânia. No mesmo instante, está também no terreno na rua 57 em que tintas brancas marcam algo que não tem nome. E ainda e agora bem ali na 26-A a cadeira e sua bolsa e sua língua metálica fazem a sombra do esquecimento recuar para longe de si. Na frente do Palácio das Esmeraldas a cadeira cresce e se insurge contra o rosto risonho e sujo daqueles que deveriam ter cuidado de Maria Gabriela e dos seus. “Áspera espera” retoma e continua o gesto de Maria Gabriela e insiste em combater a amnésia meticulosamente produzida, propondo um deslocamento da narrativa que dá ênfase à ação da mulher que salvou o futuro.

Onde: Palácio das Esmeraldas, Centro de Convenções, Rua 57, Rua 26-A.
Quando: Nas primeiras horas do dia 28 de Setembro de 2026.
Artista: Glauco Gonçalves
Fotográfa: Tarsilla Couto de Brito
coprodução: Henrique De La Fonte

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